quarta-feira, 26 de abril de 2017

Queen - Live Aid

Quando o Queen aceitou o convite para tocar no Live Aid todos ficaram surpresos. O grupo não lançava um disco há muito tempo e os boatos que circulavam eram de que a banda iria se separar em breve. O próprio Freddie Mercury não vinha bem de saúde, com a voz prejudicada por algumas infecções que tinha sofrido nos últimos meses.

Mesmo com tantas coisas contra a apresentação, a banda aceitou o convite e a razão foi explicada depois pelo cantor Freddie Mercury. Durante uma entrevista para um jornalista americano ele disse: "Eu fui criado e educado em uma colégio inglês na Índia. Havia dois mundos bem diferentes. A dos ricos, onde tudo havia em excesso e a dos pobres, onde faltava tudo. Isso me criou uma consciência social que nunca me deixou!"

Amigos próximos depois diriam que Mercury sentia-se muito culpado por causa de sua riqueza em um mundo onde muitos não tinham nem o que comer. Tão ressentido ficava com a situação de pobreza extrema em certos lugares que Freddie Mercury não conseguia sequer assistir a um documentário sobre pessoas famintas e crianças morrendo de fome na África. Ele não suportava aquilo, simplesmente se levantava e desligava a TV. Era demais para sua sensibilidade suportar.

Assim quando surgiu a ideia do Live Aid, Freddie Mercury decidiu que o Queen iria participar apesar de todos os problemas. Não importava que Brian May e Roger Taylor quase não se falavam mais, não importava as brigas internas, nada importava. O Queen era seu grupo musical e Mercury fazia questão que ele se apresentasse. Durante o dia em que o grupo iria subir ao palco Freddie deixou todos surpresos por andar no meio do público, interagindo com as pessoas e os fãs. Enquanto os demais membros do Queen ficavam trancados em suas suítes no hotel, Mercury resolveu interagir com as pessoas que estavam no festival. Ele tomou lanches nas barraquinhas, conversou com jornalistas, foi uma pessoa completamente humilde e acessível. Nada parecido com a fama de diva que alguns diziam ter. O resultado de tanto boa vontade se materializou no palco pois até hoje os críticos concordam que o concerto do Queen foi o melhor de todo o festival.

Pablo Aluísio.

sábado, 22 de abril de 2017

Frank Sinatra, JFK e a Máfia - Parte 2

Frank Sinatra soube que o presidente John Kennedy havia sido assassinado em Dallas quando estava bem no meio das filmagens de "Robin Hood de Chicago", uma comédia musical com toques pontuais de filmes policiais que ele estava filmando ao lado de seus amigos Dean Martin e Sammy Davis Jr. O cantor estava bem no meio de uma cena que estava sendo rodada em um cemitério quando foi chamado de lado por Dean Martin. Ele então falou para Sinatra que John Kennedy estava morto, que ele havia sido baleado na cabeça durante uma parada e que ninguém sabia ainda ao certo o que havia acontecido. Ao ouvir aquilo Sinatra ficou branco como uma parede!

Frank Sinatra ficou devastado com aquela notícia. Ele havia trabalhado ao lado do jovem senador para elegê-lo presidente dos Estados Unidos. Havia uma certa mágoa por parte de Sinatra porque uma vez eleito JFK se afastou dele por causa das suas ligações com chefões mafiosos, mas mesmo essa pequena "traição" não havia abalado muito sua admiração por Kennedy. "Como isso é possível?! Como isso foi acontecer?!" - repetia as mesmas perguntas aos seus amigos no set de filmagens. Embora não falasse isso no choque do momento o fato é que Sinatra pensou em Salvatore Giancana, o chefão da máfia de Chicago, quando soube que JFK estava morto!

Giancana também havia trabalhado pela eleição de JFK na campanha, mas sentia-se completamente traído por ele após seu irmão, Bobby Kennedy, iniciar uma verdadeira cruzada contra as famílias mafiosas nos Estados Unidos. Sinatra se via numa situação delicada pois havia pedido o apoio de Sam Giancana e depois ele passara a ser perseguido pelo FBI e pelo procurador geral, cargo ocupado justamente por Bobby. Foi uma saia justa delicadíssima para Sinatra. Assim quando foi informado que Kennedy havia levado um balaço certeiro na cabeça, Sinatra pensou no chefe mafioso. Depois se acalmou um pouco ao descobrir que o assassino do presidente era um ex-fuzileiro naval chamado  Lee Harvey Oswald, sem ligações com o submundo do crime de Chicago.

As suspeitas porém voltaram alguns dias depois quando Oswald foi apagado por Jacob Rubenstein, alcunha de Jack Ruby, esse sim um sujeito que tinha ligações com a máfia. Sinatra ficou intrigado com aquilo. Ele já ouvira falar de Ruby, inclusive de encontros com Sam Giancana! O que havia por trás de tudo aquilo? Um dos problemas que Sinatra tinha que enfrentar era que o FBI estava começando a pegar no seu pé por causa desse tipo de ligação do cantor com chefes mafiosos. O FBI andava desconfiando que Sinatra não passava de um laranja de Giancana em seu empreendimento do Cal Neva Lodge & Casino, que muitos diziam ser na verdade do chefão da máfia e não de Sinatra. Afinal qual era a verdade no meio de tantos mistérios não resolvidos?

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

John Lennon - Live Peace in Toronto - Parte 1

Em 1969 chegou nas lojas o álbum "John Lennon - Live Peace in Toronto". Esse pode ser considerado o primeiro disco solo de John do ponto de vista puramente musical. Seus outros trabalhos ao lado de Yoko Ono traziam apenas sons experimentais e nada mais. Aqui sim havia finalmente música. É um show ao vivo com a Plastic Ono Band, um arremedo de grupo musical que John reuniu às pressas para fazer o concerto.

O disco abre com um cover de Lennon para o clássico de Carl Perkins, "Blue Suede Shoes", que como todos sabemos se tornaria imortal mesmo na voz de Elvis Presley. Apesar da pressa de se ensaiar na véspera do show e tudo mais, essa versão de John Lennon é bem executada, diria até muito boa. Há uma pegada bem mais pesada do que as versões originais e os solos de guitarra valorizam muito o resultado final. Com essa performance Lennon quis deixar claro suas raízes, de onde tinha surgido sua vontade de ser um roqueiro. Tudo podia ser encontrado nos primeiros discos da pioneira geração do rock americano. O resto era bobagem.

Depois ele mais uma vez deixou o arranjo mais pesado e visceral nessa nova versão de "Money", uma canção marcante dos primeiros discos dos Beatles. É impossível não lembrar dos Beatles aqui. A melodia foi, digamos, modificada bastante por John. Ficou com menos velocidade, mas também mais pesada. Uma solução por parte de Lennon que me agradou completamente devo dizer. A única ausência mais sentida vem da ausência justamente dos vocais de apoio de Paul e George. A voz isolada de John deixa uma sensação de vácuo, de que algo está faltando. E está mesmo, pois os Beatles eram mesmo insubstituíveis.

Depois de dois covers - excelentes, é bom frisar - John se sai com uma versão envenenada de "Dizzy, Miss Lizzy". Essa canção fechava o álbum "Help!" dos Beatles. Não era uma composição de Lennon e McCartney, mas sim uma faixa composta por Larry Williams. Na época de sua gravação original ao lado dos Beatles, John justificou sua gravação como um lembrete aos demais membros do grupo de que os Beatles era uma banda de rock ´n´ roll e isso jamais deveria ser esquecido. Por isso ele optou por essa pauleira, com guitarras estridentes e fortes. Talvez John estivesse incomodado com gravações como "Yesterday" e todos aqueles violinos. Para John Lennon isso agredia um pouco a imagem que ele gostava de ter de si mesmo, a de um jovem roqueiro rebelde com casaco de couro.

Pablo Aluísio.

sábado, 15 de abril de 2017

Bill Haley and His Comets - Rock 'n' Roll Stage Show

Bill Haley começou sua carreira como artista tipicamente Country and Western, porém nos anos 1950 ele foi notando que o gosto dos jovens estava mudando. Havia um novo balanço, uma aceleração nas canções, tudo feito com o propósito de se soltar na pista de dança. Assim Haley incorporou essa nova sonoridade em seus discos. Um exemplo podemos ouvir aqui em "Rock 'n' Roll Stage Show", onde ele já adota abertamente a expressão da moda, "Rock 'n' Roll", para impulsionar a venda de seus álbuns.

Lançado em agosto de 1956, um ano chave para a popularização do rock americano, o disco não abre mais margens à dúvida sobre que tipo de artista Bill Haley era naquele momento. É curioso porque por anos ele foi indicado como o "pai do rock", só que na verdade Haley apenas surfou na nova onda que vinha crescendo cada vez mais. Como ele vivia da sua música ele tinha que seguir a corrente para sobreviver. Tanto isso é verdade que uma vez estabilizado na carreira, Haley voltou a gravar faixas country, do tipo que sempre fez parte de sua discografia antes do advento do rock. Esse disco aqui é considerado por alguns fãs de Haley como uma colcha de retalhos sem muita consistência. São apenas 4 faixas cantadas por ele, sendo as outras encaixadas quase como tapa-buracos. Há bastante música instrumental e ótimos arranjos, mas de Bill Haley mesmo, muito pouco. Mesmo assim vale por sua importância histórica para o surgimento do rock feito nos Estados Unidos naqueles tempos pioneiros.

Bill Haley and His Comets - Rock 'n' Roll Stage Show (1956)
1. Calling All Comets
2. Rockin' Thru the Rye
3. A Rockin' Little Tune
4. Hide and Seek
5. Hey Then, There Now
6. Goofin' Around
7. Hook, Line and Sinker
8. Rudy's Rock
9. Choo Choo Ch'Boogie
10. Blue Comet Blues
11. Hot Dog Buddy Buddy
12. Tonight's the Night

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Chuck Berry - St. Louis to Liverpool

Chuck Berry ficou vários anos na prisão. Finalmente em 1963 ele ganhou a liberdade. Quando saiu da cadeia ele percebeu que os grupos de rock que mais faziam sucesso nas paradas, como Beatles e Rolling Stones, estavam gravando vários de seus antigos clássicos. Assim o interesse em sua música estava renascendo. Ao ser preso nos anos 50 uma das coisas que Berry havia dito era que jamais voltaria a gravar pela gravadora Chess, pois era, em suas próprias palavras, uma empresa comandada por um bando de ladrões. Pois bem, ao sair da prisão, falido e sem muitas perspectivas, ele acabou cedendo às pressões e voltou para a Chess para gravar esse álbum. Ele engoliu seu orgulho pessoal para ter uma nova oportunidade na carreira.

O título procurava fazer uma ponte entre o legado de Berry e as novas bandas, por isso a referência a Liverpool, a terra dos Beatles. É claro que havia ali um oportunismo barato por parte dos produtores, mas para Berry o importante era voltar à ativa, voltar a trabalhar. E como era de se esperar o resultado era genial. Em seus anos preso, Berry aproveitou para compor vários temas, muitos deles gravados aqui pela primeira vez. Um repertório fantástico, capaz de derrubar dúzias de bandinhas da moda. Ele era realmente genial. Basta dar uma olhada na seleção para verificar que novos clássicos da geração rocker eram lançados nesse álbum como, por exemplo, "Promised Land" (que Elvis Presley regravaria alguns anos depois), "Merry Christmas Baby" (outra que Elvis aproveitaria, um autêntico blues de natal, composto na amargura de se passar uma noite de natal atrás das grades) e "Little Marie", uma espécie de continuação de "Memphis, Tennessee". Enfim, o disco era mais uma obra prima da discografia de Berry, produzido em uma época complicada de sua vida. A despeito de tudo contra, Chuck Berry mais uma vez provava que ainda era capaz de produzir rock de extrema qualidade. Ser genial é isso aí.

Chuck Berry - St. Louis to Liverpool (1964)
 1. Little Marie
2. Our Little Rendezvous
3. No Particular Place to Go
4. You Two
5. Promised Land
6. You Never Can Tell
7. Go Bobby Soxer
8. Things I Used to Do
9. Liverpool Drive (instrumental)
10. Night Beat (instrumental)
11. Merry Christmas Baby
12. Brenda Lee

Pablo Aluísio.

sábado, 8 de abril de 2017

The Beatles - Revolver - Parte 1

"Revolver" foi um disco essencial para os Beatles porque eles descobriram que certos limites poderiam ser rompidos. Até aquele momento a indústria da música limitava muito o que poderia ou não fazer parte de um álbum de uma banda tão comercial como os Beatles. E de certa forma eles se mantiveram dentro dessas linhas até aquele momento.

Os Beatles tinham contratos a cumprir com a EMI e como sempre quem reunia todos era Paul McCartney. Era ele quem ligava para os demais Beatles para informar o dia em que haveria gravação no Abbey Road Studios. Paul não deixava a bola cair, tanto que ele já chegou no primeiro dia de gravação com pelo menos três grandes canções, baladas que tinham sido bem trabalhadas por ele em seu pequeno estúdio caseiro que mantinha em Londres. "For No One", "Here, There and Everywhere" e "Eleanor Rigby" estavam praticamente prontas, embora Paul quisesse ainda trabalhar melhor nos arranjos deles ao lado de George Martin.

Esse tipo de situação criava uma certa tensão, principalmente em relação a John Lennon, que se via diante de um trabalho maravilhoso de Paul. Canções lindas, com excelentes melodias, enquanto ele não tinha praticamente nada a mostrar, apenas alguns esboços inacabados. Esse tipo de desnível em termos de produção fez com que Paul passasse a liderar os Beatles, algo que criava um certo ressentimento e mágoa em John, que se considerava o verdadeiro líder da banda e o seu fundador.

As canções de John eram bem pessoais, retratando aspectos do que aconteciam em sua vida naquele momento. Ele disponibilizou para o disco músicas como "I'm Only Sleeping", "She Said She Said", "Doctor Robert" e principalmente "Tomorrow Never Knows" que naquele momento era apenas uma ideia, algo a ser criado coletivamente ao lado de Paul e George Martin. Conforme confidenciaria anos depois John também compôs grande parte de "Taxman" ao lado de George Harrison, mas resolveu deixar os créditos apenas para ele. Assim já havia quase dez músicas para gravação, um bom número que já justificava o começo dos trabalhos.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Pink Floyd - Learning to Fly

Música: Learning to Fly
Grupo: Pink Floyd
Compositores: David Gilmour, Anthony Moore, Bob Ezrin e Jon Carin
Álbum: A Momentary Lapse of Reason
Selo: EMI, Columbia
Data de Lançamento: Setembro de 1987
Produção: Bob Ezrin e David Gilmour
Músicos: David Gilmour (guitarra, vocais), Nick Mason (bateria, vocais), Richard Wright (piano), Jon Carin (teclados), Steve Formam (bateria), Tony Levin (baixo).

Comentários:
Dos escombros de uma briga judicial que parecia nunca ter fim o Pink Floyd finalmente ressuscitou na segunda metade dos anos 80. Agora liderados única e exclusivamente por David Gilmour, o novo grupo tinha a proposta de levantar o nome da banda, tão desgastada por causa das brigas entre Gilmour e Roger Waters. Esse último tentou impedir nos tribunais ingleses o uso do nome "Pink Floyd" pelos demais membros do conjunto. Assim David Gilmour precisou lutar muito para que ele e seus companheiros Nick Mason e Richard Wright tivessem o direito de usar o nome em um novo álbum. Esse disco acabou sendo chamado de "A Momentary Lapse of Reason".

Apesar de todas as críticas, inclusive de Waters que jamais reconheceu esse LP como sendo do Pink Floyd realmente, devo dizer que gostei bastante da nova proposta. David Gilmour, um dos maiores instrumentistas da história do rock, realmente realizou um trabalho bem sofisticado, muito bom de se ouvir. Não era em absoluto revolucionário, ou qualquer outra coisa do tipo, porém era digno de se usar o mitológico nome da maior banda de rock progressivo da história. O resto são lágrimas ao vento de um ressentido Roger Waters, que deveria ter ficado mesmo calado.

Letra:
Learning to Fly
(Gilmour / Moore / Ezrin / Carin)

Into the distance a ribbon of black
Stretched to the point of no turning back
A flight of fancy on a windswept field
Standing alone my senses reeled
A fatal attraction is holding me fast how
How can I escape this irresistible grasp?

Can't keep my eyes from the circling skies
Tongue tied and twisted just an earth bound misfit, I

Ice is forming on the tips of my wings
Unheeded warnings I thought I thought of everything
No navigator to find my way home
Unladened, empty and turned to stone

A soul in tension that's learning to fly
Condition grounded but determined to try
Can't keep my eyes from the circling skies
Tongue-tied and twisted just an earth-bound misfit, I

Friction lock, set
Mixtures, rich...
Propellers, fully forward
Flaps, set, ten degrees
Engine gauges…

Pablo Aluísio.

domingo, 2 de abril de 2017

The Doors - Morrison Hotel - Parte 1

Em 1970 Jim Morrison já tinha ultrapassado todos os limites. Ele já havia sido preso, processado e execrado pela mídia por causa de alguns concertos muito loucos que havia feito ao lado de sua banda. Não havia mais espaço para a inocência. Quando não estava sendo massacrado pela imprensa ou prestando depoimento em algum tribunal, Jim procurava relaxar. Seu lugar preferido para isso era o bar mais próximo.

Quanto mais vagabundo fosse o boteco, melhor para Jim. Ele adorava passar horas e horas ouvindo blues, bebendo muito, nesse tipo de lugar. E foi em um desses bares que ele teve duas ideias que pareciam brilhantes: um disco mais visceral, cru, com muitos blues intitulado simplesmente "Morrison Hotel", justamente o mesmo nome de um dos botequins que Jim mais apreciava.

Os Doors estavam mesmo precisando cumprir seus contratos com a gravadora. Desde que Jim tinha se metido em apuros legais, ele não havia entrado mais em estúdio. A lata estava vazia! O problema para os produtores era conseguir levar Jim para trabalhar sem que ele estivesse completamente bêbado ou narcotizado. Como seu lema preferido dizia: "Os excessos levam aos palácios da sabedoria". Pelos excessos que tinha cometido certamente, naquela altura de sua vida, Jim já poderia se considerar um sábio!

De uma forma ou outra Jim prometeu cumprir o contrato, procurando beber menos durante a semana de gravações do novo álbum (algo que cumpriu apenas em parte pois em algumas faixas o ouvinte podia notar claramente que Jim estava embriagado!). Assim uma semana antes de entrar em estúdio Jim e os Doors se encontraram para os primeiros ensaios. Morrison havia escrito algumas letras, adaptado até mesmo velhos poemas de sua autoria. Como sempre o material era de primeira. Meio ao acaso, administrando o caos, então os Doors começaram a dar os primeiros acordes. O novo disco estava prestes a ser produzido.

Pablo Aluísio.

sábado, 1 de abril de 2017

Paul McCartney e os Wings - Parte 3

Depois de gravar "Ram" Paul se convenceu que precisava formar uma nova banda. Ele sentiu falta de gravar com um conjunto de verdade e não apenas com músicos contratados de estúdio. Inicialmente Paul pensou em formar um super grupo de rock, com Eric Clapton, Pete Townshend, Billy Preston e outros feras do rock mundial. Só a nata da música, porém depois desistiu dessa ideia pois não se sentia muito confortável de ter que passar por tudo de novo, com brigas de egos e confusões, como havia acontecido com os Beatles. Era melhor formar um novo grupo com músicos menos conhecidos, mas que fossem bons o suficiente para fazer um bom trabalho, tanto em estúdio, como em concertos ao vivo.

Nesse aspecto um dos nomes que vieram à mente de Paul foi o de Denny Laine, do grupo The Moody Blues. Esse conjunto havia sido empresariado por Brian Epstein, o mesmo empresário dos Beatles, por isso Paul conhecia Laine muito bem, desde os primeiros tempos dos Beatles, quando ambos excursionavam juntos pela Inglaterra. Paul gostava de seu estilo e sabia que o The Moody Blues estava com a carreira praticamente estagnada, sem um sucesso há anos. Convidar Laine assim se tornou algo natural. Para o guitarrista o convite caiu do céu pois ele estava passando por dificuldades financeiras, com pilhas de contas para pagar. Sem trabalhar há muito tempo, a proposta de fazer parte do Wings foi realmente uma salvação.

O outro nome que Paul pensou para o grupo foi o da sua própria esposa Linda. Se John havia colocado Yoko Ono em sua banda, Paul faria o mesmo com sua patroa. O problema é que Linda era uma excelente fotógrafa, mas jamais havia tocado nenhum instrumento. Sua habilidade musical era zero. Ok, Linda havia participado timidamente da gravação de "Let It Be", fazendo vocais de apoio, mas se tornar uma das "instrumentistas" do Wings já era demais.

Paul porém estava decidido e Linda entrou para a banda. Ele lhe ensinou alguns acordes no teclado, só para que ela não ficasse o palco parada, sem ter o que fazer. O núcleo central dos Wings estava completo, com Paul, Denny e Linda. Essa seria a sua formação básica, até que Paul teve uma ideia maluca! Será que John Lennon aceitaria fazer parte dos Wings? John era, segundo as próprias palavras de Paul, o único ex-Beatle que gostaria de trabalhar novamente. Eles estavam juntos desde a adolescência e Paul sabia que John era o parceiro ideal. As relações com George estavam péssimas desde as sessões de "Let It Be" e Paul não tinha a menor intenção de trabalhar de novo com ele. Ringo era apenas o baterista, não fazendo grande diferença, mas John... bem, John era o grande parceiro de sua vida! Só que após algumas semanas Paul chegou na conclusão que John jamais aceitaria tal convite depois da separação dos Beatles. Era uma ideia bizarra demais para virar realidade.

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Paul McCartney - Pipes of Peace (1983)

Um dos grandes sucessos de Paul na década de 80, naqueles que foram alguns dos anos mais criativos de toda sua carreira. Aqui Paul segue com a fórmula que havia dado muito certo em "Tug of War", ou seja, reunir-se a um grande nome da música com produção do maestro George Martin, seu produtor mais constante desde a época dos Beatles. Se em "Tug of War" tínhamos a presença muito especial de Stevie Wonder aqui Paul resolveu trazer nada mais, nada menos, do que o auto proclamado Rei do Pop, sim ele mesmo, Michael Jackson! Foi uma via de mão dupla,. Jackson participou de "Pipes of Peace" e em contrapartida Paul deu às caras no fenomenal disco "Thriller" (na ótima faixa “The Girl Is Mine”). Em Pipes of Peace Michael Jackson participa de duas excelentes canções, a simpática "Say, Say, Say" e a baladona "The Man". Ambas as músicas foram assinadas por Paul e Michael. Infelizmente essa parceria bem sucedida dentro dos estúdios, não duraria muito, pois Paul e Michael se desentenderam depois por causa da venda dos direitos autorais das músicas dos Beatles. Paul queria comprar, mas Michael lhe passou a perna e as comprou antes, deixando Paul desolado... e furioso! Sobre o acontecimento Jackson resumiria tudo com a seguinte frase: "Amigos, amigos, negócios à parte". Nunca mais voltaram a trabalhar juntos embora as regras de boa educação fizessem com que evitassem uma troca de acusações por meio da imprensa na época!

Além de Michael Jackson, Paul resolveu formar uma nova banda para as gravações, formação essa que eu pessoalmente considero das melhores, contando com o ex-Beatle Ringo Starr (dispensa maiores apresentações), Denny Laine (do Wings), Eric Stewart (ex-10cc) e Stanley Clarke (um instrumentista excepcionalmente talentoso). Tantos talentos juntos geraram um excelente álbum com músicas excepcionais como a própria música título, "Pipes of Peace", que ganhou um dos melhores videoclips da carreira de McCarntey. Passada na I Guerra Mundial a estória relembra um pequeno evento, baseado em fatos reais, que aconteceu quando dois exércitos inimigos resolveram bater uma bolinha nos campos enlameados do front durante uma trégua. Paul inclusive surge dos dois lados, como um inglês e como um alemão. Extremamente bem produzido o clip até hoje é lembrado, tal sua qualidade. A música "Say, Say, Say" também virou um videoclip bastante divertido com Paul e Michael interpretando charlatões no século passado. A canção se tornou o carro chefe do disco e foi lançada em single que trazia uma estranha capa com Paul e Michael com pernas enormes, realmente desproporcionais. No lado B desse single foi encaixada a bacaninha "Ode a Koala Bear", uma musiquinha muito simpática e bem arranjada.

Um fato curioso é que Paul, na época da gravação desse disco, estava muito envolvido no projeto para um musical a ser lançado no cinema. Assim as coisas ficaram meio atropeladas. Tentando ganhar tempo Paul acabou incluindo várias composições que iriam entrar em "Tug Of War", mas que acabaram ficando de fora do disco como "Keep Under Cover", "Hey Hey", "Tug Of Peace" e "Sweetest Little Show". Talvez por essa razão "Pipes of Peace" ganharia uma injusta fama de ser uma “sobra” de "Tug of War". Tal forma de pensar é bem injusta pois o álbum apesar de sofrer influências do disco anterior certamente tem identidade própria. No final o disco fez sucesso, e apesar dos pesares, conseguiu emplacar nas paradas, chegando a vender 1 milhão de cópias apenas nos EUA. O êxito prosseguiu em vários outros países conquistando vários discos de ouro e platina. Paul McCartney assim confirmava mais uma vez sua grande vocação para o sucesso.

1. Pipes of Peace (Paul McCartney) - Paul sempre caprichou nas canções que davam título aos seus álbuns. O mesmo aconteceu com a música "Pipes of Peace". A inspiração para Paul veio de um evento histórico real acontecido durante a Primeira Guerra Mundial, quando soldados ingleses e alemães, inimigos no campo de batalha, aproveitaram uma trégua para disputar uma animada pelada de futebol no meio dos campos cheios de lama desse conflito que ficou conhecido como a guerra das trincheiras. O clip obviamente aproveitou a ideia e usou um artifício bastante curioso, colocando Paul atuando tanto como um soldado inglês como um alemão, com seus uniformes, bigodinhos e insígnias próprias de cada país. Realmente genial. Em termos musicais Paul e George Martin (sempre ele, sempre presente nos melhores trabalhos dos Beatles) criaram um maravilhoso arranjo, clássico e erudito, para acompanhar a singela letra. Eu considero essa gravação uma verdadeira obra prima, sem favor algum!

2. Say Say Say (Paul McCartney / Michael Jackson) - O maior sucesso desse disco foi uma parceria que Paul fez com Michael Jackson. Na verdade era uma troca de gentilezas. Paul trabalhou no álbum "Thriller" de Jackson, cantando na canção "The Girl Is Mine" e ele retribuiu aqui, gravando "Say Say Say" ao lado de Paul. Na época Michael Jackson era certamente o maior nome da música. Nunca um disco havia vendido tanto como "Thriller" (recorde que permanece até os dias de hoje) e ele estava no auge de sua popularidade. Era um super astro do mundo da música, estava realmente no topo do mundo! "Say Say Say" foi lançada como single e ganhou um clip. Desnecessário dizer que foi um mega sucesso. No videoclip (lembre-se que a MTV estava nascendo), Paul e Michael interpretavam vendedores ambulantes do começo do século XX, um tipo muito comum naquele tempo. Vendendo garrafas de elixir milagroso (que não passavam de embustes) eles tinham que dar no pé assim que o golpe era descoberto. Um dos melhores clips de Paul e Jackson que ajudou o álbum a vender muito, se tornando um dos singles campeões de vendas dos anos 80.

3. The Other Me (Paul McCartney) - Essa canção "The Other Me" quase entrou no álbum "Tug of War", mas ficou de fora por falta de espaço. Na verdade Paul tinha tantas composições disponíveis naquela época - uma das mais criativas e produtivas de sua carreira - que ele até mesmo cogitou a possibilidade de gravar um disco duplo. Só desistiu da ideia depois que a gravadora EMI o aconselhou a gravar dois discos separados, um para ser lançado em 1982 e outro em 1983. Comercialmente seria mais interessante. Paul concordou com a ideia e assim tivemos "Tug of War" e "Pipes of Peace", duas obras primas da carreira solo de McCartney. A letra da música fala sobre o "Outro Eu". Nos versos Paul resume a questão ao cantar: "Eu sei que fui um louco idiota / Por tratá-la do jeito que tratei / Mas algo tomou conta de mim / Eu realmente não ficaria surpreso / Se você tentasse encontrar um "Outro Eu". Dizem alguns autores que Paul escreveu essa letra como um pedido de desculpas para a sua esposa Linda. Houve uma época em que ele começou a beber em demasia e Linda o confrontou sobre isso, gerando grandes discussões entre o casal. Ao que tudo indica Paul realmente entendeu que ele estava errado, agindo como um idiota. Pois é, nunca é tarde para se reconhecer um erro.

4. Keep Under Cover (Paul McCartney) -  Um dos problemas desse disco é que ele foi lançado em um espaço de tempo muito curto em relação ao disco anterior, "Tug Of War". Isso fez com que Paul utilizasse material que havia sido descartado nos trabalhos das sessões de 1982. Um exemplo disso vem em "Keep Under Cover" que fazia parte da primeira lista de canções que deveriam fazer parte de "Tug of War". Como foi descartada, Paul resolveu colocá-la aqui nesse LP. Ao lado de George Martin, Paul criou um arranjo que saísse do comum, ao invés do tradicional piano ele resolveu acrescentar belos solos de cravo, de forma bem discreta, ao fundo. A letra foi escrita na fazenda de Paul na Escócia e tem tudo a ver com a vida cotidiana por lá. Para torná-la mais comercialmente viável Paul colocou alguns clichês, versos de amor bem banais, para falar a verdade. Apesar disso (ou em razão disso) a música acabou funcionando muito bem do ponto de vista harmônico.

5. So Bad (Paul McCartney) - A balada "So Bad" é um dos melhores momentos desse álbum. Mostra claramente o tipo de composição que Paul sempre soube fazer muito bem. Baladas românticas, sem medo de soarem piegas ou bregas. A música tem belos versos como "Há uma dor, dentro de meu coração / Você significa muito para mim / Garota, Eu te amo / Garota, Eu te amo tanto!" - versos mais do que simples, mas que acabam tocando qualquer um que esteja apaixonado. Paul sempre soube criar grandes músicas usando versos batidos, isso é bem verdade, mas que são atemporais, nunca perdendo a essência de sua mensagem de amor. Paul sempre foi um romântico incorrigível, vamos ser bem sinceros e isso talvez tenha sido o segredo de seu sucesso como Beatle e depois como artista solo. O simples, muitas vezes, funciona mais do que o complexo, o rebuscado.

6. The Man (Paul McCartney / Michael Jackson) - "The Man" foi a outra canção feita em parceria com Michael Jackson. Paul estava bem à vontade e animado por trabalhar ao lado do cantor mais famoso do mundo na época, mas a amizade teve um fim precoce. Michael Jackson, sem avisar a Paul, lhe passou uma rasteira, comprando todo o catálogo das canções dos Beatles, justamente em um período em que Paul se preparava financeiramente para ele mesmo adquirir as canções que havia escrito ao lado de John Lennon. Isso significou o fim da aproximação entre Paul e Michael. Nunca mais se falaram novamente. Uma pena, porque pelo menos artisticamente eles pareciam dar muito certo. Basta ouvir essa balada "The Man", um primor pop que tocou muito nas rádios da época, para ter certeza disso. Tem um refrão pegajoso, um bom arranjo instrumental e aquela vocação para se tornar hit nas rádios (coisa que a música realmente se tornou assim que foi lançada).

7. Sweetest Little Show (Paul McCartney) - Já "Sweetest Little Show" se sobressai pelos bons arranjos acústicos. É interessante que Paul, ao trabalhar ao lado de George Martin, sempre procurava por bons materiais, uma vez que o famoso produtor só aceitava trabalhar tendo total poder de veto, ou seja, Martin podia rejeitar qualquer composição que Paul trouxesse para o estúdio caso ele entendesse que não era muito boa. Claro que também com os anos o relacionamento entre eles foi se desgastando justamente por isso. Paul era tão dominador e controlador quanto George Martin. O próprio George Harrison em vários ocasiões acusou Paul de ser um arrogante prepotente dentro dos estúdios, sempre impondo suas escolhas aos outros. Embora respeitasse muito George Martin pelo que ele havia feito pelos Beatles no começo da carreira, ele agora não parecia mais disposto a ouvir um não de seu produtor. Por essa razão também essa música acabou sendo uma das últimas parcerias entre eles. Paul ficou possesso, pois George Martin quase a tirou do disco "Pipes of Peace" por ser, em sua opinião, "banal demais". Imaginem o ataque de raiva de Paul, o controlador, ao ouvir esse tipo de crítica!

8. Average Person (Paul McCartney) - Se você estiver procurando conhecendo melhor o som mais pop dos anos 80 eu recomendo essa gravação de Paul para o álbum "Pipes of Peace". Notem os arranjos, algo que foi muito utilizado pelos grupos da época. No meio dos efeitos sonoros, Paul parece ter usado todos os instrumentos que eram modinha naqueles tempos, com direito a uma bateria eletrônica e muitos sintetizadores. É interessante porque gravações como essa acabam ficando mais datadas do que as demais, feitas ao estilo mais tradicional. Pois é, o moderninho tem mesmo a tendência de envelhecer mais rápido do que a velha e boa sonoridade musical de raiz. Fica a lição.

9. Hey Hey (Paul McCartney) - Um fato curioso é que "Pipes of Peace" foi gravado meio às pressas, para aproveitar o sucesso da parceria entre Michael Jackson e Paul McCartney (que juntos gravaram duas músicas, "Say Say Say" e "The Man"). Assim Paul teve que se virar para completar o álbum. Uma das soluções que ele encontrou foi encaixar algumas composições que havia criado para o disco anterior, "Tug of War". Ele pegou algumas faixas que tinham sobrado, muitos delas trabalhadas ao lado do produtor George Martin (dos Beatles) e começou a trabalhar em cima delas. Algo de bom poderia sair daquelas canções inacabadas. Uma dessas músicas descartadas foi "Hey Hey". Na verdade a falta de tempo fica patente na faixa que sequer tem letra! Na verdade é uma boa jam session de Paul com seu grupo e nada mais! Curiosamente a canção até tem boa melodia, agradável, mas nada disfarça o fato dela ser uma grande encheção de linguiça. O próprio Paul ficou um pouco decepcionado de ter incluído canções como essa (que no máximo poderiam ser usadas como lados B de seus compactos mais obscuros). Anos depois ele diria: "Não tive realmente tempo de colocar algo melhor no disco. Reconheço minha falha!".

10. Tug of Peace (Paul McCartney) - "Tug Of Peace", por sua vez, é o que gosto de chamar de canção link! O que exatamente significa isso? Essencialmente é uma faixa de ligação com o disco anterior, "Tug of War". Quase que puramente instrumental - com um pequeno refrão por um coro que parece ter saído de algum álbum dos Wings - essa faixa é apenas uma espécie de gravação experimental de Paul no disco. Afinal os fãs dos Beatles pensavam que apenas John Lennon e Yoko Ono podiam se dar ao prazer de gravar faixas assim? Porém ser experimental era obviamente pouco para Paul McCartney. Assim o ex-Beatle escreveu alguns belos arranjos para solos de sua guitarra Gibson, que atravessam praticamente toda a gravação. Uma canção um pouco abaixo das demais presentes nesse disco, mas certamente uma das mais interessantes do ponto de vista puramente musical. Paul sendo um pouco Lennon, para variar.

11. Through Our Love (Paul McCartney) - Embora, como sempre, tenha seus detratores, o fato é que o álbum "Pipes of Peace" também tem momentos muito bons, canções inegavelmente bem escritas. A música "Through Our Love" selecionada por Paul para fechar o disco, tem uma melodia belíssima e um maravilhoso arranjo. Aqui Paul realmente trabalhou duro ao lado do produtor e maestro George Martin para lapidar cada nuance, cada nota. A letra, despudoradamente romântica é quase uma carta de amor de Paul (obviamente para Linda) para deixar as coisas sem importância para trás, não se perdendo mais tempo com elas. Em reflexão Paul admite que já perdeu tempo demais em coisas sem a menor importância. O que importa no final de tudo é realmente dar o amor para a pessoa que se ama, nada mais. Enfim, uma bela melodia embalada por uma letra bem articulada, honesta, cheia de sentimentos. Paul em sua mais pura essência.

Pablo Aluísio e Erick Steve.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Chuck Berry - Too Much Monkey Business

É uma pena que o mito e pioneiro do rock Chuck Berry tenha nos deixado. Ele morreu no dia 18 de março de 2017. Estamos sempre comentando sobre Berry aqui no blog, pois sua música, seus discos e suas gravações estão sempre vivas nesse espaço, na ordem do dia. Pois bem, para homenagear esse grande roqueiro, um dos verdadeiros pais do rock ´n´ roll, nada melhor do que falar sobre sua arte. Em 1956, em pleno auge da explosão do rock, Berry lançou mais esse single pela Chess.

O compacto era extraído de seu álbum "After School Session" (um dos ícones da primeira geração de roqueiros americanos) e trazia dois clássicos absolutos, com "Too Much Monkey Business" no lado A e "Brown Eyed Handsome Man" no lado B. A letra, como convinha a Berry nessa época, usava de gírias da época, pois a expressão "Monkey Business" era muito utilizada entre os jovens. A música fez bastante sucesso, chegando ao quarto lugar da Billboard e entrou definitivamente no panteão de grandes clássicos do rock ´n´ roll, ganhando versões posteriores de grandes astros da música como os Beatles e Elvis Presley. Algum tempo depois um outro single seria lançado com a canção "Let It Rock" no lado A, mostrando como essa faixa era popular na carreira de Chuck Berry.

Chuck Berry - Too Much Monkey Business (1956)
Single: Too Much Monkey Business / Brown Eyed Handsome Man
Cantor: Chuck Berry
Álbum: After School Session
Selo: Chess Records
Data de Lançamento: Setembro de 1956
Produção: Leonard Chess, Phil Chess
Músicos: Chuck Berry (vocais e guitarra), Johnnie Johnson (piano), Willie Dixon (baixo), Fred Below (bateria).

Too Much Monkey Business

(Chuck Berry)

Runnin' to-and-fro, hard workin' at the mill
Never fail in the mail, yeah, come a rotten bill
Too much monkey business, too much monkey business
Too much monkey business for me to be involved in

Salesman talkin' to me, tryin' to run me up a creek
Says you can buy now, gone try, you can pay me next week, ahh!
Too much monkey business, too much monkey business
Too much monkey business for me to be involved in!

Blonde haired good looks, tryin' to get me hooked
Want me to marry, get a home, settle down, write a book!
Too much monkey business, too much monkey business
Too much monkey business for me to be involved in!

Same thing every day, gettin' up, goin' to school
No need for me to complain, my objection's overruled, ahh!
Too much monkey business, too much monkey business
Too much monkey business for me to be involved in

Take home, something wrong, dime gone, will hold
Order suit, hoppered up for telling me a tale, ahh
Too much monkey business, too much monkey business
Too much monkey business for me to be involved in

Been to yokohama, been fightin' in the war
Army bunk, army chow, army clothes, army car, aah!
Too much monkey business, too much monkey business
Too much monkey business for me to be involved in

Workin' in the fillin' station, too many tasks
Wipe the windows, check the tires, check the oil, dollar gas!
Too much monkey business, too much monkey business
Don't want your botheration, get away, leave me

Too much monkey business for me!

Pablo Aluísio.

sábado, 25 de março de 2017

Paul McCartney e os Wings - Parte 2

Logo no comecinho dos anos 70 Paul McCartney resolveu viajar para os Estados Unidos, para Nova Iorque. Ele tinha planos de gravar seu novo disco lá. O repertório era composto basicamente por canções compostas por Paul em sua fazenda na Escócia. Tudo foi feito da forma mais informal possível. Paul alugou um velho estúdio punk, que pertencia a um dos membros dos Ramones.

Não era um estúdio sofisticado, nem tinha conforto algum. Na realidade parecia mais um velho porão cheio de poeira. Para Paul porém tudo estava bem, ele gostou do clima mais rústico do lugar. Obviamente Paul não queria repetir a experiência de seu primeiro disco solo, "McCartney" onde ele tocou todos os instrumentos, gravando o disco praticamente sozinho. Assim ele tinha que contratar músicos para acompanhá-lo. Todos os contatos foram feitos pessoalmente por Paul, sem a interferência de produtores, empresários, etc. Paul ligou pessoalmente para os músicos, os convidando para a sessão de gravação. Não haveria contratos escritos, nem nada do tipo. Paul pagaria pelo dia de gravação e após um aperto de mão hippie tudo estaria resolvido.

O primeiro contratado foi o baterista Denny Seiwell que mal sabia que estava prestes a gravar um disco ao lado do ex-beatle. Paul quis contratá-lo por uma semana. O pagamento foi feito e tudo estava resolvido. Dave Spinozza foi chamado para uma das guitarras. Paul queria que ele gravasse por seis dias, mas Dave já tinha compromissos e ele só poderia tocar por três dias. Por fim outro guitarrista foi contratado, Hugh McCracken. Era uma banda bem básica, sem luxos. Os trabalhos então começaram. Esse pacote de canções não se destacaria dentro da carreira de Paul, a não ser duas faixas que se tornariam hits, a bem elaborada "Uncle Albert / Admiral Halsey" e "Another Day" que se tornaria o primeiro single de grande sucesso da carreira solo de Paul.

Depois das sessões em Nova Iorque Paul, Linda e as crianças viajaram para Los Angeles. onde o álbum seria mixado. McCartney resolveu chamar seu novo disco de "Ram", uma expressão que significava manter-se firme, aguentar o tranco. Era justamente o que Paul tinha que passar na época. Em breve ele teria que voltar para Londres para as tediosas sessões de julgamento do fim dos Beatles, onde Paul estava processando Allen Klein, o desonesto empresário dos Beatles. Paul também estava com pressa no lançamento de seu novo disco porque estava completamente sem dinheiro. Klein havia suspenso o pagamento de seus direitos na época dos Beatles e a parte que lhe cabia no selo Apple. Era imperativo colocar o novo disco nas lojas pois Paul estava completamente descoberto na questão financeira.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Beatles - John Lennon e o desastre da Apple - Parte 10

Para que a Apple pudesse sobreviver os Beatles tiveram que morrer. Um aspecto curioso sobre o fim do grupo de rock mais famoso do mundo é que a empresa criada e idealizada por John Lennon conseguiu sobreviver ao fim do conjunto pelo qual foi criada. Após a dissolução de fato dos Beatles eles começaram uma ciranda de processos que duraria praticamente toda a década de 1970. No centro de todos esses processos estava justamente e luta pelo poder dentro da Apple.

Quando essa empresa foi bolada por John Lennon ele queria que esse novo selo musical fosse aberto a qualquer pessoa de talento. Não seria mais preciso implorar para gravar um disco ou fazer alguma gravação. A ideia de John foi realmente boa, só que ninguém quis colocá-la em prática. Nenhum dos Beatles (talvez com exceção de Paul) quis realmente se envolver no dia a dia na empresa, administrá-la e gerir a imensa soma de dinheiro que circulava em seus balancetes.

O descaso imperou durante longos anos na Apple, até que no final dos anos 70 todos estavam cansados de tantas brigas judiciais. Ao invés de liquidar a Apple, dando a cada um dos ex-Beatles sua fatia do bolo, acabou-se optando por algo mais racional. A Apple não seria mais extinta e fechada. Ao contrário disso o selo continuaria a administrar o legado dos Beatles, mesmo que eles estivessem separados. O interesse nos Beatles nunca cessou. Ao contrário do que muitos pensavam os anos só consolidaram ainda mais a obra da banda. Os discos foram sendo relançados ao longo dos anos, com excelentes resultados comerciais. CDs, filmes, especiais de TV, tudo ainda estava de pé. E para administrar tudo, lá estava a Apple novamente no centro das atenções.

A Apple nasceu bagunçada e desorganizada, com aquele velho sonho do flower power que jamais daria certo dentro de uma corporação. A partir dos anos 80 porém a empresa começou a ser bem administrada, com a nomeação de executivos de negócios para gerenciá-la, tudo resultando em ótimos resultados financeiros. Paul, Ringo, George e Yoko (que herdou a parte de John), continuaram sócios e donos da Apple. O bom senso, que nunca havia prevalecido na época dos Beatles, finalmente tomou conta de todos. Hoje em dia a Apple ainda mantém o controle sobre os lançamentos dos Beatles no mercado, provando que mesmo com todos os problemas conseguiu resistir ao teste do tempo. No final de tudo o desastre da Apple levou os Beatles ao seu fim, mas paradoxalmente coube à mesma empresa manter viva a chama do maior grupo de rock da história.

Pablo Aluísio.

sábado, 18 de março de 2017

Paul McCartney - Through Our Love / Tug Of Peace

Embora, como sempre, tenha seus detratores, o fato é que o álbum "Pipes of Peace" também tem momentos muito bons, canções inegavelmente bem escritas. A música "Through Our Love" selecionada por Paul para fechar o disco, tem uma melodia belíssima e um maravilhoso arranjo. Aqui Paul realmente trabalhou duro ao lado do produtor e maestro George Martin para lapidar cada nuance, cada nota.

A letra, despudoradamente romântica é quase uma carta de amor de Paul (obviamente para Linda) para deixar as coisas sem importância para trás, não se perdendo mais tempo com elas. Em reflexão Paul admite que já perdeu tempo demais em coisas sem a menor importância. O que importa no final de tudo é realmente dar o amor para a pessoa que se ama, nada mais. Enfim, uma bela melodia embalada por uma letra bem articulada, honesta, cheia de sentimentos. Paul em sua essência.

 "Tug Of Peace", por sua vez, é o que gosto de chamar de canção link! O que exatamente significa isso? Essencialmente é uma faixa de ligação com o disco anterior, "Tug of War". Quase que puramente instrumental - com um pequeno refrão por um coro que parece ter saído de algum álbum dos Wings - essa faixa é apenas uma espécie de gravação experimental de Paul no disco. Afinal os fãs dos Beatles pensavam que apenas John Lennon e Yoko Ono podiam se dar ao prazer de gravar faixas assim? Porém ser experimental era obviamente pouco para Paul McCartney. Assim o ex-Beatle escreveu alguns belos arranjos para solos de sua guitarra Gibson, que atravessam praticamente toda a gravação. Uma canção um pouco abaixo das demais presentes nesse disco, mas certamente uma das mais interessantes do ponto de vista puramente musical. Paul sendo um pouco Lennon, para variar.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Beatles - John Lennon e o desastre da Apple - Parte 9

Um fato pouco conhecido dos fãs dos Beatles é que nos últimos momentos da banda houve uma derradeira tentativa de salvar os Beatles. Aconselhado por Allen Klein, John Lennon resolveu fazer um último esforço para ressuscitar o grupo. Uma sessão de gravação foi marcada nos estúdios de Abbey Road. George e Ringo confirmaram sua presença. Então John ligou para Paul informando a sessão, dizendo: "Vamos gravar na sexta. Estaremos esperando por você!". Paul não confirmou nada, ficou em silêncio.

No dia marcado todos os três Beatles compareceram. A intenção era gravar um novo single dos Beatles. Seria o primeiro lançamento deles após o lançamento do álbum "Let It Be". Com vinte minutos de atraso John adentrou o Abbey Road. Encontrou George e Ringo na sala de controle. George Martin também estava lá, mas Paul... jamais apareceu! Ringo ainda perguntou aos companheiros de grupo: "Paul não virá, vamos gravar alguma coisa ou não?". Certamente os Beatles poderiam seguir em frente sem Paul. Várias sessões nos últimos tempos tinham acontecido sem um ou até mesmo dois Beatles. Aquela porém era uma sessão diferente. Era uma tentativa de manter os Beatles unidos. Tudo fracassou.

John não ficou magoado com Paul, ficou com raiva! Poucos dias depois ele resolveu dar uma entrevista para uma famosa revista de música americana e então abriram-se as portas do inferno. John Lennon deixou sua imagem de pacifista de lado e como uma metralhadora giratória disparou para todos os lados. Acusou Paul de tudo. Disse que McCartney dominava os demais Beatles, que só suas músicas ganhavam destaque nos discos do grupo, que ele boicotava as composições dos demais colegas, que ele tratava George e Ringo como seus músicos de apoio, como empregados. Pior do que isso, perguntado sobre o primeiro disco solo de seu ex-companheiro, John foi taxativo: "O disco de Paul é um lixo!". Nem o prestativo George Martin escapou da ira de John. Ele ofendeu o talentoso maestro, que tanto havia feito pelos Beatles por todos aqueles anos. Martin jurou que nunca mais trabalharia ao lado de Lennon em sua vida.

Paul respondeu dizendo que John havia sido um babaca na entrevista. Aliás John havia sido um babaca em inúmeras ocasiões. Paul queria recomeçar, sem os Beatles, sem a Apple, sem Yoko e principalmente sem Allen Klein. Em sua fazenda isolada na Escócia Paul também explicou que John jamais o havia perdoado pelo fato dele ter barrado a entrada de Yoko Ono nos Beatles. Isso mesmo, durante as gravações do "White Album", John havia pedido apoio de todos para que Yoko Ono se tornasse parte dos Beatles. Paul disse não e então uma guerra interna começou para valer entre eles. E esse clima de tensão entre os dois acabou explodindo de vez quando John deu a sua infame entrevista em Nova Iorque. Os tempos sombrios tinham finalmente chegado.

Pablo Aluísio.