sábado, 20 de maio de 2017

The Beach Boys - Surfin' Safari - Parte 1

A resposta americana à invasão britânica não veio através de grupos ou cantores consagrados, mas sim de um grupo de jovens bem despretensiosos, que cantavam músicas bem simples, com letras louvando uma vida de surf e diversão. O Beach Boys acabou se tornando o grande rival dos Beatles nas paradas americanas. É interessante isso porque eles surgiram no mesmo ano em que os Beatles foram se firmando na carreira. Era 1962 e os dois conjuntos estavam prestes a travar uma batalha pelos primeiros lugares nas paradas americanas.

Esse primeiro disco dos Beach Boys mostra bem com era a sua musicalidade nesses primeiros anos de carreira. As melodias eram irresistíveis e os vocais muito bem elaborados. As letras eram invariavelmente monotemáticas, sem nenhuma grande riqueza poética, porém os Beach Boys não posavam de intelectuais. Eles apenas gravavam músicas bonitas, bem melodiosas, para tocar entre os jovens enquanto eles estivessem na praia, esperando para pegar a próxima onda.

A Capitol Records, que depois compraria os direitos autorais dos Beatles nos Estados Unidos, resolveu apostar nessa moçada. O resultado, pelo menos do ponto de vista comercial, foi excelente. Em certos álbuns os Beach Boys conseguiam vender mais cópias que os próprios Beatles ou até mesmo Frank Sinatra, o grande nome contratado do selo. Era surpreendente isso, porém demonstrava que o mercado consumidor jovem era uma potência em termos comerciais. A gravadora ganhou muito, muito dinheiro mesmo com esses discos dos garotos da praia.

Esse álbum tinha alguns dos maiores sucessos do grupo. Entre eles a própria faixa "Surfin' Safari". No mínimo era uma mistura esquisita. Safáris se faziam na África, não nas praias da Califórnia. E o que isso tinha a ver com surf? Não importa. O que era importante era o fato de que foi justamente essa gravação que levou os Beach Boys para a galeria dos artistas contratados pela Capitol. Eles enviaram uma fita demo para a Capitol e um dos executivos gostou muito do que ouviu. Ele qualificou a música como o "grande hit do próximo verão"!. Acertou em cheio. Lançado como single 45 RPM, o disquinho vendeu muito, colocando os Beach Boys entre os 10 mais vendidos da Billboard. Um feito e tanto para um grupo novato e praticamente desconhecido. Foi a porta de entrada para que esse álbum fosse gravado. A Capitol tinha grandes planos para eles.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Elvis Presley - Reconsider Baby - Parte 1

Nunca passou pela cabeça dos executivos da RCA Victor o lançamento de um disco apenas com músicas de blues gravadas por Elvis ao longo de sua carreira. Durante toda a sua discografia oficial que se encerrou em 1977 com sua morte, nada chegou ao mercado nesse sentido. Só em 1985 é que chegou no mercado essa coletânea blues de suas melhores faixas no gênero. Foi um resgate histórico tardio, mas muito bem-vindo. Afinal Elvis sempre foi um admirador da cultura negra dos Estados Unidos. O blues para ele era tão familiar e natural como havia sido o gospel, o country e, é claro, o rock.

Esse álbum adquiri ainda na era do vinil, em 1985 mesmo. Foi um disco que chegou a ser lançado no Brasil. A capa e a contracapa seguiram o padrão americano, o que foi muito bem-vindo para os fãs. A filial brasileira da RCA inclusive manteve o texto original que vinha na contracapa em inglês. Isso deu uma certa sensação aos fãs na época de que o disco era importado, embora fosse realmente uma edição nacional, bem caprichada. A capa já chamava a atenção por trazer uma foto rebuscada de Elvis, tirada de forma amadora, com seu terno de listas que ele chegou a usar em algumas apresentações. O clima anos 50 era de fato bem adequado para esse tipo de lançamento.

A seleção também era bem elaborada. Em meados dos anos 80 as coisas tinham melhorado na major americana da RCA Victor. Os discos eram bem mais selecionados, contando com especialistas na discografia de Elvis Presley. Nada parecido com a bagunça que se tornou os lançamentos do cantor após sua morte em 1977. Nada de coletâneas de músicas infantis e outras bobagens. A intenção agora era de fato resgatar o melhor em termos de qualidade musical por parte de Elvis e seu legado. Assim os fãs acabaram sendo presenteados com um disco que tinha além de uma direção de arte muito bonita, também uma seleção digna de um nome como Elvis Presley.

A música principal do disco também lhe dava o título. "Reconsider Baby" é até hoje considerada a melhor música de blues gravada por Elvis. Ela fez parte inicialmente do sublime disco "Elvis is Back!" que foi gravado assim que Elvis retornou aos Estados Unidos da Alemanha, onde tinha ido cumprir seu serviço militar. Depois de ficar dois anos longe dos estúdios e dos microfones, Elvis parecia com muita disposição para gravar. O repertório desse disco foi simplesmente genial, uma maravilhosa sessão de canções que para muitos formaram o melhor trabalho do cantor nos anos 60. Certos exageros à parte, não há muito equívoco nesse tipo de opinião. "Reconsider Baby" estava aí para provar esse tipo de ponto de vista. Era mesmo uma obra prima do blues, divinamente cantada por Elvis Presley. Um daqueles momentos únicos que definiram toda a carreira de um artista como ele.

Pablo Aluísio.

sábado, 13 de maio de 2017

The Beatles - White Album - Parte 2

John Lennon queria colocar Yoko Ono nos Beatles! Era um absurdo, mas Lennon gostava desse tipo de ideia nonsense. E ele parecia disposto a prova seu ponto de vista, mesmo com as negativas de Paul McCartney sobre a entrada de Yoko na banda. Para provar que Yoko Ono tinha talento musical, John a levou para a gravação de "The Continuing Story of Bungalow Bill". Essa estranha composição havia sido criada na Índia, quando os Beatles estavam meditando com o guru Maharishi Mahesh Yogi em Rishikesh. A letra era uma sátira contra turistas ocidentais que iam até a Índia caçar animais selvagens (como tigres) e depois iam aos templos religiosos em busca de um encontro espiritual elevado! Lennon criticava essa postura hipócrita daquele que matava de dia e à noite ia atrás de elevação espiritual.

Yoko Ono foi colocada para cantar e... com todo respeito a quem gosta da "Yoko música" (seja lá o que isso queira dizer) o fato é que como cantora ela era uma excelente artista plástica. Yoko deu então seus gritos estridentes e praticamente destruiu a gravação. George Harrison tentou convencer John a apagar a participação de sua "patroa", mas sua sugestão foi recebida com insultos. John se sentiu ultrajado com a opinião de George! Foi se criando um clima ruim entre eles dentro dos estúdios Abbey Road, a tal ponto que quase chegaram às vias de fato! Faltou pouco para não se agredirem. Paul McCartney também não gostou nem da música em si e nem da participação de Yoko, mesmo assim ainda colaborou nos arranjos, tocando baixo e fazendo vocais de apoio (para melhorar o coro e disfarçar um pouco a falta de talento de Yoko nos microfones).

Outra gravação que trouxe problemas entre John Lennon e os Beatles foi "Revolution 9". Não era uma música, mas uma coleção de sons experimentais sem nexo. Era algo que fazia a cabeça de John e Yoko, mas que no fundo não tinha nada a ver com o som dos Beatles. Esse tipo de ideia seria levada à exaustão no LP solo de John chamado "Two Virgins". Tudo fazia parte da terapia do grito primal que John vinha seguindo há tempos. Durante muito tempo, até quase na véspera do lançamento do álbum, Paul tentou de todas as formas convencer John a tirar "Revolution 9" do álbum. Ele recusou até o fim a sugestão de Paul, dizendo com firmeza: "A música fica!". Quando o disco finalmente chegou nas lojas a crítica não soube lidar muito bem com aquele tipo de (falta) de musicalidade. Parecia algo maluco que John havia colocado no disco por pura birra e arrogância. Algo do tipo "Eu posso fazer isso e o farei!".

Felizmente nem tudo era feito de sons estranhos e falta de notas musicais. John ainda era capaz de compor belas melodias. "I'm So Tired" era um exemplo da delicada mistura de gêneros musicais que John fazia muito bem. A música tinha um estilo blues, aliado a uma interpretação bem inspirada de John, cantando como se realmente estivesse cansado de tudo. Como havia efetivamente música ali, Paul resolveu também se empenhar, escrevendo algumas linhas da melodia. George Martin também foi essencial, criando um belo arranjo para servir de fundo à performance de Lennon. Durante algum tempo John pensou em lançar a faixa como single na Inglaterra, para promover o álbum. A canção seria lançada antes, justamente para divulgar o LP que viria. Depois, com as brigas e atritos com Paul e George, tudo foi deixado de lado. Mesmo assim, por sua beleza melódica, essa bela balada acabou se destacando dentro do álbum branco. Ela foi encaixada no Lado B do disco 1, bem depois da também bela balada "Martha My Dear" de Paul McCartney.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Pink Floyd - A Momentary Lapse of Reason - Parte 2

Poucas coisas podem ser mais chatas do que aquele grupo de fãs do Pink Floyd que vivem de ridicularizar a fase anos 80 de David Gilmour. Eu acho a opinião dessas pessoas completamente bizarra, uma vez que alguns dos meus discos preferidos da banda são dessa época. Aqueles que dizem não haver uma sonoridade genuína do Pink Floyd nesses discos precisa reavaliar urgentemente seus conceitos.

"Signs of Life" que abre o álbum "A Momentary Lapse of Reason" é um exemplo disso. É uma música puramente instrumental, que começa com sons de um remo de barco. O que estaria por trás disso. Simples de explicar. Esse disco foi gravado em um estúdio flutuante mantido por Gilmour chamado Astoria. Foi uma forma que o guitarrista e novo líder do Pink Floyd encontrou de trabalhar em paz, longe das pressões do público e da crítica. A melodia foi escrita por Gilmour e o produtor Ezrin e as vozes ao fundo são as do baterista Nick Mason. A voz dele foi duplicada, como se ele estivesse conversando com ele mesmo. Essa faixa me lembra muito a sonoridade de "Atom Heart Mother". É uma lembrança óbvia dos tempos em que o Pink Floyd criava trilhas sonoras incidentais para filmes. Uma ligação com o passado mais do que pertinente.

"The Dogs of War" continuava dividindo opiniões. Eu pessoalmente considero uma faixa forte, lembrando os bons tempos do auge da criatividade do rock progressivo inglês. Muitos a consideram um momento de fragilidade de David Gilmour nesse álbum. Que tolice! A música se revelou ótima para ser tocada ao vivo por causa de sua introdução de impacto. Composta ao lado de Anthony Moore, a letra não era uma referência aos advogados que trabalharam nos inúmeros processos envolvendo Gilmour e Roger Waters como muitos disseram na época de lançamento. Na verdade os tais cães de guerra são os políticos ingleses envolvidos em casos de corrupção. É assim uma composição mais política por parte de Gilmour. Imaginem se ele conhecesse o nível de corrupção da política brasileira! Aí sim ele veria o que é de verdade um mundo cão!

Para os que reclamavam dessa nova sonoridade da banda, provavelmente "One Slip" era um prato cheio! Lançada no último single extraído do disco "A Momentary Lapse of Reason" a canção nunca foi uma unanimidade. Já ouvi todo tipo de crítica contra essa música, desde que ela seria um popzinho safado dos anos 80, até que seria "latina demais", principalmente em sua introdução! Provavelmente resolveram pegar no pé do compositor Phil Manzanera, pensando se tratar de algum músico latino. Não é! Phil é inglês e escreveu a música ao lado de Gilmour durante a pré-produção do disco. Enfim, de bobagens e tolices esse mundo de fãs mais radicais do Pink Floyd está realmente bem cheio!

Pablo Aluísio.

sábado, 6 de maio de 2017

The Doors - Morrison Hotel - Parte 2

O álbum "Morrison Hotel" começa com aquele que considero o melhor blues dos Doors, "Roadhouse Blues"! Que grande gravação! Dentro dos estúdios, quando os Doors se entrosavam completamente, eles conseguiam o melhor em termos musicais. Essa faixa é certamente uma das melhores da discografia do grupo, porém uma ressalva é importante.

Embora seja uma das melhores gravações dos Doors, a melhor versão de "Roadhouse Blues" não está nesse disco. Uma versão ao vivo, maravilhosa, foi descoberta anos depois. Quem adquiriu o CD com a trilha sonora do filme "The Doors" de Oliver Stone certamente saberá do que estou escrevendo. Essa "Live Version" é seguramente a melhor performance do grupo interpretando esse blues. Contando com o calor e reação do público presente no concerto, esse é seguramente o auge dos Doors em relação a essa música. A Warner Music (atual detentora dos direitos autorais dos Doors) bem poderia lançar uma versão Luxe de "Morrison Hotel" com essa faixa. Ficaria perfeito.

"Land Ho!" foi uma parceria entre Jim Morrison e o guitarrista Robby Krieger. Dentro dos Doors eles tinham uma amizade especial. Krieger sempre foi um cara na dele, introspectivo, até mesmo tímido. Morrison gostava muito dele. Ao contrário de sua relação ruim com o baterista John Densmore, Jim apreciava a companhia e a presença de Krieger ao seu lado. Desses encontros, geralmente no apartamento de Morrison, surgiram composições como essa. "Land Ho!" é uma expressão que significa "Terra à Vista!", sempre dita por marinheiros quando encontravam terra firme. A letra é uma referência indireta ao próprio pai de Jim, que era da Marinha dos Estados Unidos. Claro que para disfarçar um pouco Jim diz na letra que seu avô era um baleeiro, em um universo de ficção, porém fica óbvio desde os primeiros versos a associação com o velho pai. Eles sempre tiveram uma relação muito complicada, a ponto de certa vez Jim mentir durante uma entrevista dizendo que ele estava morto!

"The Spy" por sua vez tem uma carga erótica muito grande, embora quase ninguém tenha percebido isso ao ouvir a canção pela primeira vez. Jim Morrison tinha grande habilidade nas letras, conseguindo transmitir mensagens em linguagem cifrada que poucos conseguiam compreender de imediato. Versos como "Eu sou um espião na casa do amor" não eram tão inocentes como inicialmente poderiam soar. Para pessoas próximas Jim explicou que a letra havia sido escrita após uma aventura sexual pelas noites de Los Angeles (provavelmente com uma prostituta). Para que Pamela, a garota de Jim, não pirasse, ele resolveu colocar tudo sob um véu de metáforas, algumas parecendo simples banalidades românticas. Ficou bonita, com melodia envolvente.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

The Beatles - Abbey Road - Parte 9

Dando prosseguimento na análise do álbum "Abbey Road" dos Beatles, vamos comentar sobre mais algumas canções marcantes desse maravilhoso trabalho da banda. Há muitos anos que George Harrison havia se firmado como um dos grandes compositores dos Beatles. Ele definitivamente não era mais apenas o guitarrista Teddy Boy que havia se juntado aos Beatles por causa de Paul. Nesse último disco gravado pelo conjunto, George apresentou uma de suas maiores obras primas, a música "Something". John Lennon ficou bem impressionado com ela quando George a apresentou pela primeira vez aos demais membros dos Beatles. E ele foi uma pessoa essencial na defesa de que "Something" deveria se tornar o novo single dos Beatles.

Havia uma certa resistência sobre isso porque os singles eram importantes instrumentos de divulgação dos álbuns. Nunca antes havia se dado tanto espaço para uma música de Harrison. Essa porém era impossível ignorar ou diminuir sua importância. Mesmo com uma certa dúvida de Paul os demais Beatles chegaram na conclusão que sim, "Something" seria lançada como o novo compacto, que iria funcionar como uma espécie de desbravador de mercado, para diretamente divulgar o disco que estaria chegando nas lojas. E por ter sido escolhida como a música de trabalho de "Abbey Road" os Beatles trabalharam bem nela, se esforçando nos arranjos e na própria gravação em si. O resultado, como se pôde conferir depois, ficou realmente perfeito.

Outra canção desse álbum que chamou bastante a atenção do público e da crítica foi "Octopus's Garden". Essa música foi composta por Richard Starkey, ou melhor dizendo, Ringo. Desde os primeiros discos dos Beatles sempre uma faixa era separada para ser cantada por Ringo. Segundo John as músicas mais simples eram escolhidas por ele e Paul para o baterista soltar a voz. Em um momento pouco feliz de sua tagarelice, John chegou a debochar do baterista durante uma entrevista nos anos 70 dizendo que ele definitivamente "não era o melhor cantor do mundo!". Não deveria ter dito algo assim.

Assim era tradicional abrir esse espaço para o bom e velho Ringo. A novidade era que "Octopus's Garden" era uma criação de Ringo. Desde o momento em que ele mostrou uma demo bem crua para os demais, Paul, John e o produtor George Martin decidiram que ali deveria haver muitos efeitos sonoros, tal como havia acontecido com "Yellow Submarine". Aliás para muitos críticos e especialistas da obra dos Beatles essa canção era mesmo uma espécie de sequência daquela famosa música do álbum "Revolver". Paul e John sentaram no estúdio e escreveram alguns efeitos que deveriam aparecer na gravação. Embora não tenham sido creditados na autoria da canção o fato é que a participação deles foi essencial para que "Octopus's Garden" tivesse aquela sonoridade bem conhecida, diferente de todas as outras músicas desse disco.

Pablo Aluísio.

sábado, 29 de abril de 2017

The Beatles - White Album - Parte 1

O White Album (Álbum Branco) foi um disco bem singular dentro da discografia dos Beatles. Nesse trabalho cada um dos Beatles, de forma individual, compôs o que quis e gravou o que bem entendeu. Poucas músicas foram de autoria coletiva. De forma em geral John trouxe suas canções, Paul idem e George, que sempre compôs praticamente sozinho, também trouxe seu lote de músicas.

A maioria dessas composições foram criadas na Índia, onde os Beatles tinham ido naquela sua fase de seguir gurus. Segundo John as músicas em geral soaram diferentes porque foram compostas em violão. Geralmente há uma diferença entre canções compostas em violão e em piano. Para John essa foi uma característica marcante em termos de sonoridade. Assim o White Album acabou parecendo como pequenos e isolados discos solos de cada um dos membros da banda. Em uma faixa o ouvinte tinha John Lennon e uma banda de apoio, que por acaso eram os Beatles, na seguinte Paul e seus colegas de grupo e por aí vai. Criações bem individuais em um disco de grupo.

Um exemplo marcante disso veio em Julia. Essa linda balada foi composta por John Lennon em homenagem a sua mãe que faleceu em 1958, após ser atropelada por um policial embriagado. A morte de Julia Lennon marcou demais a vida de John. Ele não gostava de seu pai, um marinheiro que mal conheceu em sua infância e juventude, mas tinha grande afinidade com a mãe. Ele herdou em grande parte o espírito livre dela. A gravação oficial de Julia acabou saindo tão simples como a versão que John compôs na Índia. Praticamente apenas voz e violão, com o vocal duplicado de John fazendo contraponto a ele mesmo. Os versos são lúdicos, envolvendo lembranças emocionais de John em sua infância, quando ia ao lado de Julia em pequenos passeios na praia. Tudo muito bonito e sentimental. Um dos grandes momentos do disco.

O curioso é que John podia ir do sentimentalismo à galhofa em questão de segundos. Assim ao lado da bela e cândida Julia, ele também trouxe para os estúdios a divertida Everybody's Got Something to Hide Except Me and My Monkey. Esse era um rock mais visceral, com claras influências de Chuck Berry. John estava sempre dizendo que no final o que lhe interessava mesmo em termos de música era o bom e velho rock ´n´ roll dos anos 50, de sua fase de juventude. Essa criação demonstra bem isso. John voltando aos tempos da brilhantina e casacos de couro de forma bem humorada e divertida.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Queen - Live Aid

Quando o Queen aceitou o convite para tocar no Live Aid todos ficaram surpresos. O grupo não lançava um disco há muito tempo e os boatos que circulavam eram de que a banda iria se separar em breve. O próprio Freddie Mercury não vinha bem de saúde, com a voz prejudicada por algumas infecções que tinha sofrido nos últimos meses.

Mesmo com tantas coisas contra a apresentação, a banda aceitou o convite e a razão foi explicada depois pelo cantor Freddie Mercury. Durante uma entrevista para um jornalista americano ele disse: "Eu fui criado e educado em uma colégio inglês na Índia. Havia dois mundos bem diferentes. A dos ricos, onde tudo havia em excesso e a dos pobres, onde faltava tudo. Isso me criou uma consciência social que nunca me deixou!"

Amigos próximos depois diriam que Mercury sentia-se muito culpado por causa de sua riqueza em um mundo onde muitos não tinham nem o que comer. Tão ressentido ficava com a situação de pobreza extrema em certos lugares que Freddie Mercury não conseguia sequer assistir a um documentário sobre pessoas famintas e crianças morrendo de fome na África. Ele não suportava aquilo, simplesmente se levantava e desligava a TV. Era demais para sua sensibilidade suportar.

Assim quando surgiu a ideia do Live Aid, Freddie Mercury decidiu que o Queen iria participar apesar de todos os problemas. Não importava que Brian May e Roger Taylor quase não se falavam mais, não importava as brigas internas, nada importava. O Queen era seu grupo musical e Mercury fazia questão que ele se apresentasse. Durante o dia em que o grupo iria subir ao palco Freddie deixou todos surpresos por andar no meio do público, interagindo com as pessoas e os fãs. Enquanto os demais membros do Queen ficavam trancados em suas suítes no hotel, Mercury resolveu interagir com as pessoas que estavam no festival. Ele tomou lanches nas barraquinhas, conversou com jornalistas, foi uma pessoa completamente humilde e acessível. Nada parecido com a fama de diva que alguns diziam ter. O resultado de tanto boa vontade se materializou no palco pois até hoje os críticos concordam que o concerto do Queen foi o melhor de todo o festival.

Pablo Aluísio.

sábado, 22 de abril de 2017

Frank Sinatra, JFK e a Máfia - Parte 2

Frank Sinatra soube que o presidente John Kennedy havia sido assassinado em Dallas quando estava bem no meio das filmagens de "Robin Hood de Chicago", uma comédia musical com toques pontuais de filmes policiais que ele estava filmando ao lado de seus amigos Dean Martin e Sammy Davis Jr. O cantor estava bem no meio de uma cena que estava sendo rodada em um cemitério quando foi chamado de lado por Dean Martin. Ele então falou para Sinatra que John Kennedy estava morto, que ele havia sido baleado na cabeça durante uma parada e que ninguém sabia ainda ao certo o que havia acontecido. Ao ouvir aquilo Sinatra ficou branco como uma parede!

Frank Sinatra ficou devastado com aquela notícia. Ele havia trabalhado ao lado do jovem senador para elegê-lo presidente dos Estados Unidos. Havia uma certa mágoa por parte de Sinatra porque uma vez eleito JFK se afastou dele por causa das suas ligações com chefões mafiosos, mas mesmo essa pequena "traição" não havia abalado muito sua admiração por Kennedy. "Como isso é possível?! Como isso foi acontecer?!" - repetia as mesmas perguntas aos seus amigos no set de filmagens. Embora não falasse isso no choque do momento o fato é que Sinatra pensou em Salvatore Giancana, o chefão da máfia de Chicago, quando soube que JFK estava morto!

Giancana também havia trabalhado pela eleição de JFK na campanha, mas sentia-se completamente traído por ele após seu irmão, Bobby Kennedy, iniciar uma verdadeira cruzada contra as famílias mafiosas nos Estados Unidos. Sinatra se via numa situação delicada pois havia pedido o apoio de Sam Giancana e depois ele passara a ser perseguido pelo FBI e pelo procurador geral, cargo ocupado justamente por Bobby. Foi uma saia justa delicadíssima para Sinatra. Assim quando foi informado que Kennedy havia levado um balaço certeiro na cabeça, Sinatra pensou no chefe mafioso. Depois se acalmou um pouco ao descobrir que o assassino do presidente era um ex-fuzileiro naval chamado  Lee Harvey Oswald, sem ligações com o submundo do crime de Chicago.

As suspeitas porém voltaram alguns dias depois quando Oswald foi apagado por Jacob Rubenstein, alcunha de Jack Ruby, esse sim um sujeito que tinha ligações com a máfia. Sinatra ficou intrigado com aquilo. Ele já ouvira falar de Ruby, inclusive de encontros com Sam Giancana! O que havia por trás de tudo aquilo? Um dos problemas que Sinatra tinha que enfrentar era que o FBI estava começando a pegar no seu pé por causa desse tipo de ligação do cantor com chefes mafiosos. O FBI andava desconfiando que Sinatra não passava de um laranja de Giancana em seu empreendimento do Cal Neva Lodge & Casino, que muitos diziam ser na verdade do chefão da máfia e não de Sinatra. Afinal qual era a verdade no meio de tantos mistérios não resolvidos?

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

John Lennon - Live Peace in Toronto - Parte 1

Em 1969 chegou nas lojas o álbum "John Lennon - Live Peace in Toronto". Esse pode ser considerado o primeiro disco solo de John do ponto de vista puramente musical. Seus outros trabalhos ao lado de Yoko Ono traziam apenas sons experimentais e nada mais. Aqui sim havia finalmente música. É um show ao vivo com a Plastic Ono Band, um arremedo de grupo musical que John reuniu às pressas para fazer o concerto.

O disco abre com um cover de Lennon para o clássico de Carl Perkins, "Blue Suede Shoes", que como todos sabemos se tornaria imortal mesmo na voz de Elvis Presley. Apesar da pressa de se ensaiar na véspera do show e tudo mais, essa versão de John Lennon é bem executada, diria até muito boa. Há uma pegada bem mais pesada do que as versões originais e os solos de guitarra valorizam muito o resultado final. Com essa performance Lennon quis deixar claro suas raízes, de onde tinha surgido sua vontade de ser um roqueiro. Tudo podia ser encontrado nos primeiros discos da pioneira geração do rock americano. O resto era bobagem.

Depois ele mais uma vez deixou o arranjo mais pesado e visceral nessa nova versão de "Money", uma canção marcante dos primeiros discos dos Beatles. É impossível não lembrar dos Beatles aqui. A melodia foi, digamos, modificada bastante por John. Ficou com menos velocidade, mas também mais pesada. Uma solução por parte de Lennon que me agradou completamente devo dizer. A única ausência mais sentida vem da ausência justamente dos vocais de apoio de Paul e George. A voz isolada de John deixa uma sensação de vácuo, de que algo está faltando. E está mesmo, pois os Beatles eram mesmo insubstituíveis.

Depois de dois covers - excelentes, é bom frisar - John se sai com uma versão envenenada de "Dizzy, Miss Lizzy". Essa canção fechava o álbum "Help!" dos Beatles. Não era uma composição de Lennon e McCartney, mas sim uma faixa composta por Larry Williams. Na época de sua gravação original ao lado dos Beatles, John justificou sua gravação como um lembrete aos demais membros do grupo de que os Beatles era uma banda de rock ´n´ roll e isso jamais deveria ser esquecido. Por isso ele optou por essa pauleira, com guitarras estridentes e fortes. Talvez John estivesse incomodado com gravações como "Yesterday" e todos aqueles violinos. Para John Lennon isso agredia um pouco a imagem que ele gostava de ter de si mesmo, a de um jovem roqueiro rebelde com casaco de couro.

Pablo Aluísio.

sábado, 15 de abril de 2017

Bill Haley and His Comets - Rock 'n' Roll Stage Show

Bill Haley começou sua carreira como artista tipicamente Country and Western, porém nos anos 1950 ele foi notando que o gosto dos jovens estava mudando. Havia um novo balanço, uma aceleração nas canções, tudo feito com o propósito de se soltar na pista de dança. Assim Haley incorporou essa nova sonoridade em seus discos. Um exemplo podemos ouvir aqui em "Rock 'n' Roll Stage Show", onde ele já adota abertamente a expressão da moda, "Rock 'n' Roll", para impulsionar a venda de seus álbuns.

Lançado em agosto de 1956, um ano chave para a popularização do rock americano, o disco não abre mais margens à dúvida sobre que tipo de artista Bill Haley era naquele momento. É curioso porque por anos ele foi indicado como o "pai do rock", só que na verdade Haley apenas surfou na nova onda que vinha crescendo cada vez mais. Como ele vivia da sua música ele tinha que seguir a corrente para sobreviver. Tanto isso é verdade que uma vez estabilizado na carreira, Haley voltou a gravar faixas country, do tipo que sempre fez parte de sua discografia antes do advento do rock. Esse disco aqui é considerado por alguns fãs de Haley como uma colcha de retalhos sem muita consistência. São apenas 4 faixas cantadas por ele, sendo as outras encaixadas quase como tapa-buracos. Há bastante música instrumental e ótimos arranjos, mas de Bill Haley mesmo, muito pouco. Mesmo assim vale por sua importância histórica para o surgimento do rock feito nos Estados Unidos naqueles tempos pioneiros.

Bill Haley and His Comets - Rock 'n' Roll Stage Show (1956)
1. Calling All Comets
2. Rockin' Thru the Rye
3. A Rockin' Little Tune
4. Hide and Seek
5. Hey Then, There Now
6. Goofin' Around
7. Hook, Line and Sinker
8. Rudy's Rock
9. Choo Choo Ch'Boogie
10. Blue Comet Blues
11. Hot Dog Buddy Buddy
12. Tonight's the Night

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Chuck Berry - St. Louis to Liverpool

Chuck Berry ficou vários anos na prisão. Finalmente em 1963 ele ganhou a liberdade. Quando saiu da cadeia ele percebeu que os grupos de rock que mais faziam sucesso nas paradas, como Beatles e Rolling Stones, estavam gravando vários de seus antigos clássicos. Assim o interesse em sua música estava renascendo. Ao ser preso nos anos 50 uma das coisas que Berry havia dito era que jamais voltaria a gravar pela gravadora Chess, pois era, em suas próprias palavras, uma empresa comandada por um bando de ladrões. Pois bem, ao sair da prisão, falido e sem muitas perspectivas, ele acabou cedendo às pressões e voltou para a Chess para gravar esse álbum. Ele engoliu seu orgulho pessoal para ter uma nova oportunidade na carreira.

O título procurava fazer uma ponte entre o legado de Berry e as novas bandas, por isso a referência a Liverpool, a terra dos Beatles. É claro que havia ali um oportunismo barato por parte dos produtores, mas para Berry o importante era voltar à ativa, voltar a trabalhar. E como era de se esperar o resultado era genial. Em seus anos preso, Berry aproveitou para compor vários temas, muitos deles gravados aqui pela primeira vez. Um repertório fantástico, capaz de derrubar dúzias de bandinhas da moda. Ele era realmente genial. Basta dar uma olhada na seleção para verificar que novos clássicos da geração rocker eram lançados nesse álbum como, por exemplo, "Promised Land" (que Elvis Presley regravaria alguns anos depois), "Merry Christmas Baby" (outra que Elvis aproveitaria, um autêntico blues de natal, composto na amargura de se passar uma noite de natal atrás das grades) e "Little Marie", uma espécie de continuação de "Memphis, Tennessee". Enfim, o disco era mais uma obra prima da discografia de Berry, produzido em uma época complicada de sua vida. A despeito de tudo contra, Chuck Berry mais uma vez provava que ainda era capaz de produzir rock de extrema qualidade. Ser genial é isso aí.

Chuck Berry - St. Louis to Liverpool (1964)
 1. Little Marie
2. Our Little Rendezvous
3. No Particular Place to Go
4. You Two
5. Promised Land
6. You Never Can Tell
7. Go Bobby Soxer
8. Things I Used to Do
9. Liverpool Drive (instrumental)
10. Night Beat (instrumental)
11. Merry Christmas Baby
12. Brenda Lee

Pablo Aluísio.

sábado, 8 de abril de 2017

The Beatles - Revolver - Parte 1

"Revolver" foi um disco essencial para os Beatles porque eles descobriram que certos limites poderiam ser rompidos. Até aquele momento a indústria da música limitava muito o que poderia ou não fazer parte de um álbum de uma banda tão comercial como os Beatles. E de certa forma eles se mantiveram dentro dessas linhas até aquele momento.

Os Beatles tinham contratos a cumprir com a EMI e como sempre quem reunia todos era Paul McCartney. Era ele quem ligava para os demais Beatles para informar o dia em que haveria gravação no Abbey Road Studios. Paul não deixava a bola cair, tanto que ele já chegou no primeiro dia de gravação com pelo menos três grandes canções, baladas que tinham sido bem trabalhadas por ele em seu pequeno estúdio caseiro que mantinha em Londres. "For No One", "Here, There and Everywhere" e "Eleanor Rigby" estavam praticamente prontas, embora Paul quisesse ainda trabalhar melhor nos arranjos deles ao lado de George Martin.

Esse tipo de situação criava uma certa tensão, principalmente em relação a John Lennon, que se via diante de um trabalho maravilhoso de Paul. Canções lindas, com excelentes melodias, enquanto ele não tinha praticamente nada a mostrar, apenas alguns esboços inacabados. Esse tipo de desnível em termos de produção fez com que Paul passasse a liderar os Beatles, algo que criava um certo ressentimento e mágoa em John, que se considerava o verdadeiro líder da banda e o seu fundador.

As canções de John eram bem pessoais, retratando aspectos do que aconteciam em sua vida naquele momento. Ele disponibilizou para o disco músicas como "I'm Only Sleeping", "She Said She Said", "Doctor Robert" e principalmente "Tomorrow Never Knows" que naquele momento era apenas uma ideia, algo a ser criado coletivamente ao lado de Paul e George Martin. Conforme confidenciaria anos depois John também compôs grande parte de "Taxman" ao lado de George Harrison, mas resolveu deixar os créditos apenas para ele. Assim já havia quase dez músicas para gravação, um bom número que já justificava o começo dos trabalhos.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Pink Floyd - A Momentary Lapse of Reason - Parte 1

Música: Learning to Fly
Grupo: Pink Floyd
Compositores: David Gilmour, Anthony Moore, Bob Ezrin e Jon Carin
Álbum: A Momentary Lapse of Reason
Selo: EMI, Columbia
Data de Lançamento: Setembro de 1987
Produção: Bob Ezrin e David Gilmour
Músicos: David Gilmour (guitarra, vocais), Nick Mason (bateria, vocais), Richard Wright (piano), Jon Carin (teclados), Steve Formam (bateria), Tony Levin (baixo).

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Dos escombros de uma briga judicial que parecia nunca ter fim o Pink Floyd finalmente ressuscitou na segunda metade dos anos 80. Agora liderados única e exclusivamente por David Gilmour, o novo grupo tinha a proposta de levantar o nome da banda, tão desgastada por causa das brigas entre Gilmour e Roger Waters. Esse último tentou impedir nos tribunais ingleses o uso do nome "Pink Floyd" pelos demais membros do conjunto. Assim David Gilmour precisou lutar muito para que ele e seus companheiros Nick Mason e Richard Wright tivessem o direito de usar o nome em um novo álbum. Esse disco acabou sendo chamado de "A Momentary Lapse of Reason".

Apesar de todas as críticas, inclusive de Waters que jamais reconheceu esse LP como sendo do Pink Floyd realmente, devo dizer que gostei bastante da nova proposta. David Gilmour, um dos maiores instrumentistas da história do rock, realmente realizou um trabalho bem sofisticado, muito bom de se ouvir. Não era em absoluto revolucionário, ou qualquer outra coisa do tipo, porém era digno de se usar o mitológico nome da maior banda de rock progressivo da história. O resto são lágrimas ao vento de um ressentido Roger Waters, que deveria ter ficado mesmo calado.

Letra:
Learning to Fly
(Gilmour / Moore / Ezrin / Carin)

Into the distance a ribbon of black
Stretched to the point of no turning back
A flight of fancy on a windswept field
Standing alone my senses reeled
A fatal attraction is holding me fast how
How can I escape this irresistible grasp?

Can't keep my eyes from the circling skies
Tongue tied and twisted just an earth bound misfit, I

Ice is forming on the tips of my wings
Unheeded warnings I thought I thought of everything
No navigator to find my way home
Unladened, empty and turned to stone

A soul in tension that's learning to fly
Condition grounded but determined to try
Can't keep my eyes from the circling skies
Tongue-tied and twisted just an earth-bound misfit, I

Friction lock, set
Mixtures, rich...
Propellers, fully forward
Flaps, set, ten degrees
Engine gauges…

Pablo Aluísio.

domingo, 2 de abril de 2017

The Doors - Morrison Hotel - Parte 1

Em 1970 Jim Morrison já tinha ultrapassado todos os limites. Ele já havia sido preso, processado e execrado pela mídia por causa de alguns concertos muito loucos que havia feito ao lado de sua banda. Não havia mais espaço para a inocência. Quando não estava sendo massacrado pela imprensa ou prestando depoimento em algum tribunal, Jim procurava relaxar. Seu lugar preferido para isso era o bar mais próximo.

Quanto mais vagabundo fosse o boteco, melhor para Jim. Ele adorava passar horas e horas ouvindo blues, bebendo muito, nesse tipo de lugar. E foi em um desses bares que ele teve duas ideias que pareciam brilhantes: um disco mais visceral, cru, com muitos blues intitulado simplesmente "Morrison Hotel", justamente o mesmo nome de um dos botequins que Jim mais apreciava.

Os Doors estavam mesmo precisando cumprir seus contratos com a gravadora. Desde que Jim tinha se metido em apuros legais, ele não havia entrado mais em estúdio. A lata estava vazia! O problema para os produtores era conseguir levar Jim para trabalhar sem que ele estivesse completamente bêbado ou narcotizado. Como seu lema preferido dizia: "Os excessos levam aos palácios da sabedoria". Pelos excessos que tinha cometido certamente, naquela altura de sua vida, Jim já poderia se considerar um sábio!

De uma forma ou outra Jim prometeu cumprir o contrato, procurando beber menos durante a semana de gravações do novo álbum (algo que cumpriu apenas em parte pois em algumas faixas o ouvinte podia notar claramente que Jim estava embriagado!). Assim uma semana antes de entrar em estúdio Jim e os Doors se encontraram para os primeiros ensaios. Morrison havia escrito algumas letras, adaptado até mesmo velhos poemas de sua autoria. Como sempre o material era de primeira. Meio ao acaso, administrando o caos, então os Doors começaram a dar os primeiros acordes. O novo disco estava prestes a ser produzido.

Pablo Aluísio.